Ensaio do coral Sidney Marzullo, que se prepara para segundo semestre de concertos

Por Ana Paula Blower

& #8220;Canta, canta, minha gente/ Deixa a tristeza pra lá/ Canta forte, canta alto/ Que a vida vai melhorar.” Os versos de Martinho da Vila preenchem de alegria o auditório onde acontecem os ensaios do Coral Sidney Marzullo, no Centro do Rio.

A emoção da música está presente nas vozes dos 24 integrantes do grupo, formado por cegos. A escolha do repertório, repleto de músicas brasileiras, não é aleatória: elas contam histórias e passam mensagens à plateia. Composto por cantores não profissionais, o conjunto já tem agenda de concertos para o segundo semestre.

Quem se beneficia da apresentação é o público. Fica sempre uma lição para quem assiste. E não tem como não se emocionar com a alegria que eles levam. Escolhemos sempre uma música que tenha uma mensagem positiva — conta o maestro da Orquestra Cesgranrio, Eder Paolozzi, que acompanha o coral e participou das audições para formá-lo.

O conjunto, uma parceria entre a União dos Cegos do Brasil, a Fundação Cesgranrio e o Centro Integrado Empresa Escola (CIEE), foi formado em 2017 e já se apresentou cinco vezes desde então. Quem participa dele aprende sobre música e ganha uma ajuda de custo, fornecida pela Cesgranrio.

A dedicação dos integrantes do coro resulta em um avanço, elogiado pelos maestros e percebido nos concertos. Christian Bizzotto, maestro e preparador vocal que também conduz o grupo, diz que os coristas, apesar de não serem profissionais, são muito exigentes com a técnica e o que devem aprender nos ensaios. Pela primeira vez trabalhando com pessoas com deficiência visual, ele se deparou com alguns desafios e muitos aprendizados.

— Estamos acostumados a simplesmente fazer um gesto. Então tive que me condicionar a descrever todos os movimentos que precisam fazer durante o ensaio, como no alongamento. Usamos recursos, como bater palmas, tocar na parte do rosto que precisa ser exercitada, por exemplo — explica Christian, que elogia a troca intensa no grupo. — Eles nos ensinam muito. São brincalhões e têm uma leveza maior para lidar com a deficiência do que nós.

Longe dos estereótipos

O bom humor é realmente uma característica marcante de Alex Alves da Silva, de 38 anos. As tiradas irônicas com os colegas nos ensaios, entretanto, não o dispersam de sua função como um dos monitores do coro. Morador da Baixada Fluminense, ele conta que só perdeu o ensaio, no Centro do Rio, uma vez.

— Estar aqui é uma satisfação muito grande. Quando ouço alguém falando sobre coral, penso: “Eu também faço parte de um”. Além de cantar, há uma descontração nesse momento (do ensaio). Ao chegar aqui a gente brinca, sorri. Eu costumo dizer que brinco com a deficiência para não deixar que ela me atinja na tristeza — comenta Alex, antes de fazer piada: — Fico nervoso antes das apresentações. A vista até embaça.

Quem conta as horas para a chegada da terça-feira, quando acontecem os ensaios, é sua colega Helena Maria Azevedo, que considera os encontros uma terapia. Ela diz que reza para que o domingo e a segunda terminem logo.

Aos 67 anos, Helena tem baixa visão, com 8% na vista direita e 5% na esquerda. Desde que passou a integrar o coral, ela percebe uma evolução no canto.

— Com esses professores, não teria como ser diferente. Eles nos passam tranquilidade — elogia Helena, cuja música favorita é a marchinha “Cidade maravilhosa”.

O coral representa ainda um rompimento de estereótipos, principalmente com relação ao estado de espírito das pessoas com deficiência, como explica Climério Rangel, de 68 anos. Ele era presidente da União dos Cegos do Brasil em 2016, quando a ideia do coral surgiu.

— Para nós, essa é uma iniciativa muito importante. Através da música, mostramos toda a nossa alegria, que as pessoas, muitas vezes, não sabem que temos — aponta Climério. —Para os cegos, de modo geral, a musicalidade traz muita alegria.

Confira as próximas apresentações 

Festival de Corais

No dia 22 de setembro, um sábado, o Coral Sidney Marzullo se apresentará na Sala Baden Powell. O espaço fica na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 360 (tel: 2547-9147). O horário do concerto é 19h.

Encontro Carioca do Artista com Deficiência

No dia 6 de outubro, um sábado, o grupo estará na Sede da União dos Cegos. O endereço é Rua Clarimundo de Melo, 216, no Encantado (tel: 2583-9240). A apresentação começará às 17h.

Source: Coral formado por cegos tem agenda de apresentações no Rio | Tô dentro – O Globo